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Terra Blog

Arquivo de: Março 2008, 21

21.03.08

Ao amor impossível.



Quando você não existia a vida era como um quarto de luz apagada. Um vácuo. O silêncio. A vida te pariu e você nasceu para mim. Essa é sua biografia na minha história. Você a traçou à sua maneira, fazendo de mim apenas sua coadjuvante. Meus olhos chegavam até você com curiosidade e enquanto você era criança ainda e dava seus primeiros passos, aqueles largos, lá no Rio de Janeiro, eu percebi. “Será que ninguém percebe através dos seus olhos, a pessoa linda que você é? Ninguém vê sua doçura como eu” Você dizia e eu acreditei. E você foi caminhando. Com passos marcados, hora e data pra chegar e sair. A vida ganha outros rumos. E você se mostra sábio e dono de si. A idade adulta chega para nós. Temos que sustentar céus e terra, mas nossas pernas são fracas, e temos os braços e mãos trêmulas. Você me mostrou que antes você existia sem mim. E eu fiz parte do seu todo, nunca vou esquecer aquele dia e sua rotina de dois anos de idade na fita cassete do seu vídeo. Eu estava lá, fazendo parte de algo maior. Você me mostrou que existia bem antes de mim, e eu? Eu chorei. Fomos criando raízes intangíveis. Demos valor demais no pouco que tínhamos. Você via graça em mim, e isso bastava. Meu perfume te bastava. E a gente construiu tudo. Pedra por pedra, filme por filme, música por música. E eu me habituei aos seus defeitos, à sua chatice de não gostar de Pink Floyd. Aquela banda underground que você insistia em me aplicar. Ah, a nossa história. E você cresceu tanto. A gente se propôs uma vida juntos. E eu acordava todo dia de manhã com você do meu lado, toda mole, querendo amor. E eu tinha. E nossas peles, nossos ossos, foram ficando pesados e fracos. E nossa vida passou, fomos envelhecendo um no outro. E eu nunca vou esquecer aquele dia. O dia em que você morreu. Eu senti tanta raiva. Eu quis morrer junto. Eu não queria te enterrar. Eu lutei tanto e até hoje eu sonho que te encontro. Que a gente toma vinho no empório e fala de nós. Até hoje eu não superei a perda. Vivo sob antidepressivos, álcool e ilusões a luz do dia. Você me faz tanta falta. Eu vivo sem eixo, eu sobrevivo. Mas um dia eu sei que vou te ver de novo, naquele lugar, e você vai me abraçar e dizer: “Como eu ainda te amo”.

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