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E ela sentou, naquele piso frio e sujo, como a esperar. A barra do vestido rasgada, a boca como vestígio e a violência daquele toque impresso além da pele, a tirava de si. Ela pesava e o seu corpo não lhe encaixava mais. Era feito para planar, mas ela achou que fosse de aço. Ele gastou tudo o que tinha, e ela perdeu a única coisa que importava, sua dignidade. Ela sabia que ainda possuía algo, que estava lacrado e que se fosse aberto poderia ferir alguém. Como a caixa de pandora, só que essa possuía destinatário próprio. Ela se sentia como a musa a seguir seu mestre, numa busca psicótica e obsessiva. Um xérox de quinta, daqueles que enlouquece tentando alcançar a magnitude que nunca vão possuir. Ele a via dentro de um aquário, como uma miniatura do que poderia ser sua maior obra de arte.
Para alcançar a beleza, haja dor. E houve. Os dois não sabiam, mas estavam cegos. A própria dos desesperados, dos desavisados, dos que estão pra cometer crimes. E os pés gelaram, o medo quebrou paredes, derreteu tintas. E ele fugiu. Correu tanto, que acabou por chegar dentro de si, dentro de suas entranhas salgadas. Esse foi o seu castigo e o seu crime. Ela continuava ali, sentiu o gosto de sangue pelos cantos da boca, só escutava o barulho do relógio, na vitrola,uma música perdida, e impresso nela, mais nada.
Imagem: Rebeca Parkes