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E hoje comemorava seus 97 anos. Família. Que engenhoca mais engraçada. Um “oi, há quanto tempo não nos vemos, que saudade.” E um certo olhar de rabo de olho pra ver se você engordou, emagreceu, casou, descasou. Fico pensando como uma pessoa pode conseguir reunir quarenta de uma só vez. Nos seus 97 anos, tentei arquitetar de uma forma melancólica e até vil o que passa pela cabeça branca, será que na mente dele existem memórias embaçadas? Vivas? Lembranças da Itália com certeza e o pé de cereja. Na minha memória, eu no colo dele, aprendendo italiano, a falar a palavra cereja. Porque não optei por essa oportunidade? Hoje eu poderia falar italiano com ele. Mas não, criança quer mais é aprender a jogar futebol de botão. Deixa o buon giorno pra de tarde. E fiquei ali parada, enquanto todos comiam e bebiam, eu o observava. Não, não se enganem o carcamano é bom de canastra até hoje. Torce pro eterno Palestra Itália e é brasileiro sim. De língua, suor, e casamento. A história não é relevante no momento de glória. 97 anos. Um amor já morto, frutos maduros, alguns podres entre as mudas que teimam em crescer. Gosto de enumerar as memórias que tenho com ele e as memórias que tenho sobre ele. Dormir às sete da noite, acordar cinco da manhã. Uma dose de pinga pra escovar os dentes. Sair com o tesourão pra podar as mudas de uva. Trouxe essa mania de saber plantar lá da terra dele. E veio pro Brasil plantar bem mais que uva. Se eu fecho os olhos eu sinto ainda o cheiro de fumo cortado, picado, cuidadosamente. Como eu gosto das minhas impressões sobre ele! Pessoa boa, foi bom marido de mulher ciumenta. Quatro anos mais velha. Tudo que sei sobre ele foi a minha avó que contou. Ou minha mãe. Ele me contava do pé de cereja na Itália, e sobre o frio que a gente não vê aqui. E ali parada, olhando pro meu bisavô de rabo de olho, tentei decifrá-lo. Sem razão pra isso lógico, porque pra quem tem 97 anos, oráculo vem por detrás de olhos sábios e cansados. Será que ele pensava na vó Bisa? A família quando comemora o aniversário dele é com uma melancolia de dar dó. “Vamos cantar parabéns pro vovõ, nunca se sabe né?” Na minha cabeça meu bisavõ não vai morrer, ele vai virar plantação de uva no quintal da casa dele, depois de uma jornada tão visceral, vai ser raiz viva. Meu võ Bibi. E a sessão de fotos da festa? Todo mundo quer um pedaço não do bolo, mas dele. Para colocar nos porta retratos e mostrar para as visitas. Ele se transorforma numa relíquia rara, empoeirada e lúcida. Ele sorri, olha e abraça. Sem distinção. Ele reuniu quatro gerações no mundo, e fez do seu coração maior que a distancia daqui a Treviso. De herança ele deixa pra mim, aquele fogãozinho enferrujado e pesado. Uma vara de pescar no Pantanal, e talvez se eu pedir muito e com cuidado cerejas lá casa dele, na Itália.
Rafaella. Uma Biasi nata. Bisneta com orgulho.

Ela gasta o que não tem, com mimos e bijuterias de quinta. Ela cobra o que não pertence a você, egoísta mimada e indecente. Ela quer sapatos de rubi, pra quem sabe poder fazer aquela viagem pra longe. Mas ela só vai até a esquina comprar sempre o mesmo cigarro e tomar o mesmo café. Finge que faz isso em Paris. Sabe que já encontrou com todos os personagens mal dirigidos. Ela salva a sua noite num dia, e você a perde em seguida. Gosta de beijar à meia luz, fora isso, não conhece nada que possa ser servido pela metade. Do martini ela devora a cereja. Gosta do superficial em doses cavalares. Mas em seu armário, nenhum Prada pra contar história. São seus sapatos que enlaçam seus vestidos. Não esqueça nada nos pertences dela. Ela não irá deixar, jogará tudo no lixo. Guarda apenas o que é dela, embrulhos em papéis de seda. Depois da quarta vodka, se desprende de lugares comuns, anda a margem de si, com nomes que não a pertence, com identidades marcadas, passaportes falsos. Cospe maribondos se você discorda das verdades gravadas e registradas em cartório. Ela vai te deixar sem nada, sem a chave de casa, sem aviso prévio. Ela vai voltar para casa, sempre sozinha, não vai ser ela na cama quando você estiver, vai ser sempre a que ela inventar. Ela sempre acorda no dia seguinte, com o mesmo cigarro, o mesmo café, e o desejo próprio dos desvalidos, de ter a quinta avenida na sua própria casa. Patética e insensata. Ela não espera por gatos sem nomes, e por quem a vai querer bem, não se dá o luxo de ter tão pouco. Ela entrega as pernas para o primeiro anjo caído que aparece. E você a devora, lambe até o último osso. Do mundo, ela quer o que vem debaixo, a terra, o útero, a passagem só de ida. Ela sempre esquece de si mesma em qualquer ponto de partida, em qualquer noite mal paga. E você a espera, por mais aquele encontro com ela. Você a espera nas esquinas da sua mente, nas esquinas da vida. Pra poder lamber, só mais um pouco do último osso que pertence a você.
Esse eu dedico às tempestades em copo d´agua, e uma em particular, que cai firme sobre o copo, my little rain drop.
Leve enquanto sujo esse chão que voce pisa. Alfineta seu egocentrismo como a um vodoo esquecido sob a mesa. Desce. Passa. Desce desse pedestal que você custou a subir. Mata sua ignorância na sede da sua volúpia. Crucifica suas mãos. Sufoca a mente em livros de auto-ajuda. Me veja ao longe, como a uma boneca estragada. Nao brinque. Joga fora, dê aos pobres. Corra. Mas corra rápido pra consciência nao te pegar. Viva de dejetos humanos sobre a cama. De fantasmas em cima do chuveiro a ecoar lembranças vivas. Chore por entre os cds do seu armário. Esmague logo essa taturana dentro do peito. Mata com água. Corta os calcanhares de aquiles. Nao esconda o ponto fraco que te pertence. Não há pernas que suporte o pouco, quando ja se conheceu um coraçao inteiro. Vá depressa. Não olhe para trás. Convida ela logo pra jantar. Faça seu melhor souflê. Não há luz que suporte a Quinta de Beethoven. Que a sujeira desses atos nao provoque náusea e culpa. Um dia nao haverá poeira pra contar história, nem a vasilha que segurou o jantar, nem a vela que queimou rápido demais para que houvesse tanto brilho no olhar. Sobra Edith Piaf na minha cabeça. "Varridos todos os amores" pra debaixo do tapete.
Leia poesia marginal, não se envolva com o personagem, ele provavelmente não te merece. Fossa bem paga é ter Kath Bloom no talo. Não goze com o pau dos outros. Nem que seja uma dança de cabaré, disfarce um pouco, finja um tanto. Vá ao Rio sozinha um dia, vá ao Rio bem acompanhada e fique por lá uma vida, aprenda a fazer bloody mary e sirva as visitas, tire conclusões precipitadas de quem não gostar. Coma salsinha, sem frescuras. Leia Bukowski na época da tpm. Acredite nos signos, em todos eles. Assista bela da tarde qualquer dia. Invente chavões, piadas internas. Um cigarro vendo Seinfeld, outro depois do café. Nunca é tarde para conhecer Ella Fitzgerald. Tenha um grupo de amigos com filmes em comum. Não misture cachaça com cerveja, nem cerveja com maconha. Pense mais, teorize mais, se envolva com quem goste de Blade Runner. Não hesite, mostre suas armas. Se faça de vítima se lhe convir, seja egoísta com o próximo, ele vai te cobrar isso depois. Seja interessante sempre com um cigarro entre os dedos. Tenha sempre na bolsa um batom vermelho, e na gaveta uma cinta liga. Um dia você vai precisar. Tenha um trabalho mediano e um que te inspire. Um amante nas horas de Bertolucci e dois nas horas de Bunuel. Aprenda a letra de lady in red depois da quarta vodka. Faça tricô pra quem quiser usar seu pulôver. Aprenda, você pode um dia ser Teresa e um dia ser Sabina, mas Tomaz, tomara que só eles. Não se envergonhe, deixe que te comam aos sábados. Trepe mais e escreva menos. Experimente saquê na salinha vip do restaurante japonês. Aprenda a fazer berinjela assada. Saiba falar eu te amo em francês e alemão. Fale mal de Lars Von Trier com quem gosta. Não aprenda muito sobre musica eletrônica. Saiba o que significa al dente. Não tenha medo, afinal Guimarães Rosa não pode ser tão difícil. Tenha apenas um perfume. Ele é você na maioria das lembranças. Esteja preparada. O tapa na cara custa caro. Cuspa primeiro, bata em seguida. Durma depois. Fique aqui e leia isso comigo, em voz alta? Risque um por um.