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Aos amantes do auto-flagelo em conta-gotas.
Ela foi ter com ele o fim. Ele esperava em silêncio, em suas mãos a sua cruz e o resto dos seus últimos dias. Jazia à beira da realidade, e na testa já marcada, sua epígrafe. A cama com lençóis molhados, cansada de ver tantas convulsões, tantos delírios em meio à febre e vírus. No rosto dela uma paz amarga, as paz dos que viram a luz e gostaram, dos que vão pegar o trem para as estrelas, dos que perdoam sempre. As mãos dela foram feitas para tecer a tranqüilidade daqueles dias, mas agora, estavam frias e vazias. Não trouxe nada para ele, nem mesmo uma lembrança passada, um poema de Leminski ou uma trilha sonora que comovia. Por egoísmo imediato e um pouco de maldade, queria que a última lembrança dele antes de alcançar a benção fosse o seu rosto. Um rosto agora marcado e limpo e que antes ele reconhecia apenas em uma maquiagem mal feita. Parte dela queria fazer cena, queria ter olhos de ressaca, queria... Mas já não havia muito tempo para o final. Ele queria que a dor passasse. Só isso. A dor daqueles silícios imaginários que o perseguia, da sombra de culpa, dos pecados, das noites a base de antidepressivos. Os pequenos auto-flagelos terrenos. Como um sapato apertado que insistimos em colocar só pelo prazer de tirar e colocar os pés machucados em água quente. Era assim que ele sobreviveu à vida. De pequenos auto-flagelos. Roía as unhas até sangrar os cantos dos dedos. Comia extrato de tomate mesmo sabendo da gastrite nervosa. Trepava sem camisinha, mesmo sabendo que aquela gozada não valia a pena. E ali naquela cama lutava contra si mesmo, lutava contra os olhos dela. Lutava contra uma raiva contida. Gostava de pensar que a raiva que ela sentia era pela sua morte e não pela sua vida desgastada, desperdiçada. Não pela sua mediocridade e fraqueza. Ela se sentia fraca perto dele, gostaria de não estar ali, de não ver a cor do caixão, de não ter que guardar em caixas essas memórias. Ela não gostava do mórbido, talvez por isso não tivesse religião, acreditava em vidas passadas por pura vaidade. Gostava de pensar que podia ser outras, que podia ter sido muitas outras. Ela nunca soube negar a ele. Nem quando ela não acreditava nas mentiras ralas que ele contava. Ela gostava de acreditar nele, gostava de tomar banho escutando a música que haviam sido deles na noite anterior, gostava de lembrar dele. Ela também guardava nas coxas, na virilha, seus próprios silícios, sua pequena tortura diária. Tortura de não conseguir jogar aquela maldita foto fora. Tortura de não conseguir falar o que pensava sobre ele, para ele. Porque perto dele, ela era uma santa, de uma passividade mortal, um sorriso nauseante, de um tesão necrófilo. E ali aos pés daquela cama sentiu que podiam se purificar, se ver livres dos fracassos e dos dias não vividos, não sobrava tempo para mais nada, nem para o perdão. E aquele beijo não iria significar muito, apenas o adeus.
Tudo começa no café da manhã. “Bom dia, amor”. O dia não vai ser nada bom. A vida não tá lá essas coisas. Mas você dá mesmo assim. O bom dia pra mulher, o bom dia pro patrão. (Colocar patrão e sogra pra fazer o texto ficar politicamente incorreto é muito démodé não é mesmo?) E você seduz alguém com meias verdades, a pessoa escuta Cazuza na vitrola e suspira. E aquele fora inesquecível? Meias verdades à meia luz. Você finge um meio orgasmo. Você meio que gozou. Você meio que traiu. Você tem a meia verdade da vodka mal tomada, da noite mal lembrada. E a verdade mal contada pra ela. E isso é você ao meio. Meio achatado entre a verdade e a mentira. Porque mentir é feio e sua mãe te ensinou. Na revista você lê que existem horas que a mentir é perdoável. Em inglês a mentira é branca. Tudo pela metade. As meias verdades... as migalhas desse pão mofado. A metade do “eu te amo” dito às pressas; Porque a meia verdade é escutada e dita às pressas. Você diz que não diz que diz que não escutou. E fica por isso mesmo. É o blefe dos malditos enclausurados nas suas próprias ilusões. E você diz sem querer, e deseja que lhe cortem a língua da próxima vez. Mas as meias verdades são a salvação dos desesperados. Dos que amam sem amar, dos que desejam sem desejar, dos que querem sem querer. Dos que morrem sem morrer. A meia verdade é uma puta requintada. Ela se entrega sem se entregar. Ela manipula, ela faz cinema. E você acredita nela, porque como não acreditar naquela cena tão bem recortada? Como não acreditar naquele roteiro tão bem elaborado? Como não acreditar naqueles olhos? Você aprendeu tanto que você sabe muito bem contar uma meia verdade olhando nos olhos, até quando a meia verdade se faz em silêncio. Porque para você entre a meia verdade e a verdade em si existe apenas uma distância de estilo. São a mesma coisa. E você deseja nunca ter lido romance realista algum, você deseja nunca ter visto filme algum, você deseja a verdade dos ignorantes, dos mendigos, dos moribundos, dos fanáticos. Porque você sabe aonde dói quando você escuta uma meia verdade. Você se vê cansado delas, como um galo de briga que perde a rinha, mas você não perde por escutá-las de novo. Porque apesar de tudo, você também sabe aonde dói escutar a verdade por ela mesma. E essa é a dor cristã que te indispõe com Deus e o Diabo. E você dá graças a eles por existir mais uma chance, para mais uma metade do mesmo.