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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2008, 09

09.04.08

Rosa, a freira

Sentada sozinha no metrô vazio, naquela cidade enorme, ela lembrou dos filmes que a acompanhavam em sua insônia. no Corujão. Aquelas luzes trespassando seu rosto, o barulho esganiçado do metrô parando, e a cena daquele filme. Rebecca de Mornay nunca esteve tão linda. Aquele aperto constante das pernas, quando algum pensamento hostil ou sacana invadia a mente e provocava o orgasmo. Rosa nunca soube, mas ela pertencia a ínfima parcela de mulheres que conseguia o maldito orgasmo múltiplo. Para os dela, às vezes, bastava um aperto de mão molhado.

Rosa sempre se sentiu protagonista daquela cantiga de roda. Sempre se punha a chorar. Sempre lhe faziam chorar. Sempre saia estropiada de seus encontros. Os pseudo-romances de portão. E o tremor indecente, as mãos brancas e frias, o calafrio.

Tinha em seus dedos, contados, um por um, todos os fracassos vividos. O de não tocar mais flauta, o de não ter ido a Paris, de não saber cantar direito, de não ter terminado o curso de inglês. Mas o que perturbava mesmo a mente de Rosa era a falta que um carinho na nuca lhe fazia. Como uma lembrança antiga de seu pai avisando que ia sair para comprar o leite, e nunca mais voltar.

Rosa tinha pouca idade ainda e resolveu que queria casar. Casou com um nômade, de profissão duvidosa, e maus hábitos. Pervertido, mulherengo, maconheiro. Não. Rosa não casou direito. E num belo dia, de boas nuvens no céu, ao esfregar aquela maldita cueca no tanque, Rosa fez as malas, não pegou nada na casa, apenas o retrato dela e de suas boas amigas. Voltou pra casa.

Rosa voltou e fez viagens astrais pela cidade que morava. Namorou quem queria, tinha época que gostava de colecionar namorados, lhe falaram que era boa de cama e ela acreditou. E foi assim, entre um show de rock e outro, entre um bar e outro com as amigas que ela o encontrou, na pista de dança. Num movimento frenético e com um copo de cerveja na mão.

Existem homens que a comiam com os olhos, esse a comia com o sorriso. Do sorriso que Rosa viu pela primeira vez aos diamantes que brotavam de seus olhos. E por entre suas pernas o orgasmo vivo. E ela se mostrou para ele, com unhas e dentes. Foi tão leve, mostrou o que sabia do mundo, nada além de algumas citações de Roberto Freire, ou alguns filmes de Bertolucci. Mas ele se encantava, e ela deixava. Não se negaram em nada, nem naquele sentimento pueril e nem nos melhores orgasmos da vida de Rosa. Mas a realidade costuma ser cruel para mulheres como ela. E ele disse num dia muito comum e ordinário. Teria que ir embora. Ele não era mesquinho, esse não era nenhum fora tolo que Rosa estava acostumada. Ele realmente tinha que ir embora. Morar longe de Rosa.

Passou o carnaval na vida de Rosa, a cena de Grease a acompanhava. Amor de verão, sabe? Amor de verão atravessa continente? Rosa não sabia de mais nada. Na cabeça dela só a encenação da despedida -á la casablanca- e a carta que ele nunca vai ler.

Hoje, Rosa passa os dias vendo novela e fazendo tricô. Aprendeu a costurar, a fazer bolo de cenoura, parou de beber. De sair. Hora ou outra o consolo vem em pequenos goles do tal licor. Não sabe o que fazer com tantos calafrios, mas aprendeu a rezar. E viu que conversar com Deus dá aquela sensação na nuca. E que Jesus nunca vai lhe faltar, ou viajar. Por isso hoje, Rosa usa silícios quando os calafrios voltam e cuida da ala das enterradas-vivas num convento perto de Jaboticabal. Lá ela reza e ensina a rezar. Se comove com a história de três garotas perdidas e pensa que um dia bem que poderia compartilhar sua história com elas.

Amém
  • criado por  lust_for_life criado por lust_for_life
  • Postado em 17:21:22