| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | |
| 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 |
| 14 | 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 |
| 21 | 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 |
| 28 | 29 | 30 |
Elena tinha manias estranhas. De todas era a mais fechada. Se fechava em seu quarto e aguardava o juízo final. Por trás dos óculos de grau a euforia. Gostava de guardar as meias por ordem de cor, um ritmo que só ela sabia. Ninguém mexia nos seus cds, nem nas suas fotografias. Não saía do banheiro sem antes acender e apagar a luz duas vezes. Guardava em segredo manias mais hostis. Tinha taras obsessivas também.
Gostava de homens com cicatrizes. Se tinha cicatriz de lábio leporino então, Elena ía as nuvens. Não se concentrava bem no sexo enquanto não terminava de procurar no corpo dele qualquer vestígio de cicatriz.
Elena não era de muitos amigos, mas gostava de reunir sua turma para um copo de vinho toda primeira quinta feira do mês. Não acreditava em terapia. E quem sou para não acreditar em Elena.
Elena conheceu Marina em uma de suas idas raras ao teatro. Detestava quem mascasse chiclete perto dela, e Marina realmente perturbou Elena com aquilo. E foi aquele o primeiro encontro de uma amizade de sangue. Saíram algumas vezes, Marina às vezes não suportava a melancolia de Elena, e vice e versa. Se afastavam vez ou outra, da maneira como se afasta de um espelho quando se vê uma espinha no nariz.
Elena gostava de escutar Marina com suas histórias verossímeis e sem nenhum apelo intelectual. Marina fazia Elena viajar por lugares quando Marina os citava, via os filmes que vinham da cabeça e mente de Marina.
Elena só não gostava de escutar sobre Josivaldo. Marina destruía o dia de Elena quando ela vinha com aquelas historias hediondas e pervertidas.
Sim, as duas se amavam. De uma amizade de berço, de fofocas contadas as três da manha, de cafés para escutar os dramas rotineiros. Tinham pactos de não ter homens em comum. Os xingava vez ou outra.
Na cabeça das duas pensamentos secretos. Não, não. Gostavam demais de homem para isso. E o buraco, como sempre, é mais embaixo.
Imagem: Jason Jenkins