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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2008, 22

22.04.08

A desvalida

 

 

Ela gasta o que não tem, com mimos e bijuterias de quinta. Ela cobra o que não pertence a você, egoísta mimada e indecente. Ela quer sapatos de rubi, pra quem sabe poder fazer aquela viagem pra longe. Mas ela só vai até a esquina comprar sempre o mesmo cigarro e tomar o mesmo café. Finge que faz isso em Paris. Sabe que já encontrou com todos os personagens mal dirigidos. Ela salva a sua noite num dia, e você a perde em seguida. Gosta de beijar à meia luz, fora isso, não conhece nada que possa ser servido pela metade. Do martini ela devora a cereja. Gosta do superficial em doses cavalares. Mas em seu armário, nenhum Prada pra contar história. São seus sapatos que enlaçam seus vestidos. Não esqueça nada nos pertences dela. Ela não irá deixar, jogará tudo no lixo. Guarda apenas o que é dela, embrulhos em papéis de seda. Depois da quarta vodka, se desprende de lugares comuns, anda a margem de si, com nomes que não a pertence, com identidades marcadas, passaportes falsos. Cospe maribondos se você discorda das verdades gravadas e registradas em cartório. Ela vai te deixar sem nada, sem a chave de casa, sem aviso prévio. Ela vai voltar para casa, sempre sozinha, não vai ser ela na cama quando você estiver, vai ser sempre a que ela inventar. Ela sempre acorda no dia seguinte, com o mesmo cigarro, o mesmo café, e o desejo próprio dos desvalidos, de ter a quinta avenida na sua própria casa. Patética e insensata. Ela não espera por gatos sem nomes, e por quem a vai querer bem, não se dá o luxo de ter tão pouco. Ela entrega as pernas para o primeiro anjo caído que aparece. E você a devora, lambe até o último osso. Do mundo, ela quer o que vem debaixo, a terra, o útero, a passagem só de ida. Ela sempre esquece de si mesma em qualquer ponto de partida, em qualquer noite mal paga. E você a espera, por mais aquele encontro com ela. Você a espera nas esquinas da sua mente, nas esquinas da vida. Pra poder lamber, só mais um pouco do último osso que pertence a você.

 

Esse eu dedico às tempestades em copo d´agua, e uma em particular, que cai firme sobre o copo, my little rain drop.

  • criado por  lust_for_life criado por lust_for_life
  • Postado em 17:25:31