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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2008, 25

25.04.08

Treviso



E hoje comemorava seus 97 anos. Família. Que engenhoca mais engraçada. Um “oi, há quanto tempo não nos vemos, que saudade.” E um certo olhar de rabo de olho pra ver se você engordou, emagreceu, casou, descasou. Fico pensando como uma pessoa pode conseguir reunir quarenta de uma só vez. Nos seus 97 anos, tentei arquitetar de uma forma melancólica e até vil o que passa pela cabeça branca, será que na mente dele existem memórias embaçadas? Vivas? Lembranças da Itália com certeza e o pé de cereja. Na minha memória, eu no colo dele, aprendendo italiano, a falar a palavra cereja. Porque não optei por essa oportunidade? Hoje eu poderia falar italiano com ele. Mas não, criança quer mais é aprender a jogar futebol de botão. Deixa o buon giorno pra de tarde. E fiquei ali parada, enquanto todos comiam e bebiam, eu o observava. Não, não se enganem o carcamano é bom de canastra até hoje. Torce pro eterno Palestra Itália e é brasileiro sim. De língua, suor, e casamento. A história não é relevante no momento de glória. 97 anos. Um amor já morto, frutos maduros, alguns podres entre as mudas que teimam em crescer. Gosto de enumerar as memórias que tenho com ele e as memórias que tenho sobre ele. Dormir às sete da noite, acordar cinco da manhã. Uma dose de pinga pra escovar os dentes. Sair com o tesourão pra podar as mudas de uva. Trouxe essa mania de saber plantar lá da terra dele. E veio pro Brasil plantar bem mais que uva. Se eu fecho os olhos eu sinto ainda o cheiro de fumo cortado, picado, cuidadosamente. Como eu gosto das minhas impressões sobre ele! Pessoa boa, foi bom marido de mulher ciumenta. Quatro anos mais velha. Tudo que sei sobre ele foi a minha avó que contou. Ou minha mãe. Ele me contava do pé de cereja na Itália, e sobre o frio que a gente não vê aqui. E ali parada, olhando pro meu bisavô de rabo de olho, tentei decifrá-lo. Sem razão pra isso lógico, porque pra quem tem 97 anos, oráculo vem por detrás de olhos sábios e cansados. Será que ele pensava na vó Bisa? A família quando comemora o aniversário dele é com uma melancolia de dar dó. “Vamos cantar parabéns pro vovõ, nunca se sabe né?” Na minha cabeça meu bisavõ não vai morrer, ele vai virar plantação de uva no quintal da casa dele, depois de uma jornada tão visceral, vai ser raiz viva. Meu võ Bibi. E a sessão de fotos da festa? Todo mundo quer um pedaço não do bolo, mas dele. Para colocar nos porta retratos e mostrar para as visitas. Ele se transorforma numa relíquia rara, empoeirada e lúcida. Ele sorri, olha e abraça. Sem distinção. Ele reuniu quatro gerações no mundo, e fez do seu coração maior que a distancia daqui a Treviso. De herança ele deixa pra mim, aquele fogãozinho enferrujado e pesado. Uma vara de pescar no Pantanal, e talvez se eu pedir muito e com cuidado cerejas lá casa dele, na Itália.


Rafaella. Uma Biasi nata. Bisneta com orgulho.

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