| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | |||
| 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 |
| 12 | 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 |
| 19 | 20 | 21 | 22 | 23 | 24 | 25 |
| 26 | 27 | 28 | 29 | 30 | 31 |
Catarina gostava de abrir antigas cartas de amor, gostava de soprar a poeira das fotografias, espirrava e enchia os olhos de água. Revisitava seu passado como se revisita um livro. Lia tudo como se fosse a primeira vez. Trazia as asas que nunca ecoaram tão longe. Andava pelos corredores da casa e contava decepções. Uma a uma. Fazia isso como as crianças fazem com as conchas que acham na praia.
Catarina vivia os dias ímpares, para os pares a tristeza estava reservada. Vivia desacompanhada e bem vestida. Adorava fazer supermercado, estrear aquela receita de fricassê que sua mãe tinha lhe ensinado. Lia em poesia dos outros a sua própria. Para os dias de tristeza, preparava chá de camomila, um bom drama americano e lenços de papel. Mas ai de quem visse nela uma criatura jogada as traças, oca, infeliz. Não. Ela dizia: "A resposta da felicidade está em conviver com a dor oposta a ela". E isso ela sabia, ela tratava da própria dor. Catarina era feliz. Ela e suas memórias.
Catarina era livre. Viajava pra Europa, trazia lembrancinhas para os amigos, conhecia pessoas e colocava mais um tanto de tempo em caixas. E o guardava para mais tarde. Vivia para alimentar o passado, nao via mal nisso nem nas más interpretaçoes dos clássicos. Para ela, Capitu tinha sim traído Bentinho. E nao se importava do contrário. Era uma romântica. Queria manter relacionamentos a distância, mas eles nao conseguiam. Por ela trocaria cartas a vida inteira. Aquelas de amor, tuberculose e boêmia.
Até que um dia Catarina topou o presente, ele vinha com flores e caixas de chocolate. E ele vinha pra ficar em sua cama, no seu banheiro, trazia tambem algumas caixas pra pendurar com as dela. Ele batia à porta.
Catarina negou tudo, fechou a porta na cara dele, abriu a caixa do ano de 1999 e lá ficou, por muito tempo... Era um dia par, aquele. Catarina foi feliz.

O que te atrai? Qual o sinal que faz você perceber que alguém está parado, a espera, com espelhos sob o teto? O que te comove? Como saber que você foi o melhor para alguém, como saber que você errou, perdoou, se desfez, se reconstruiu, catou os cacos e viu sua imagem de novo no pedaço do refletor? O que te comove? O que te faz ir embora sempre? O que te faz voltar sempre? O que você gostaria que acontecesse nos próximos cinco minutos? O quanto você já leu desse livro? As tais vinte páginas? O quanto você precisa para me reconhecer de novo? Você precisa do diamante de mil faces no meu olhar, das borboletas no estômago? Você sabe... diamantes são pra sempre, as borboletas morrem, mas deixam o porvir, o que seria delas se não fosse sua própria metáfora de transformação e novidade? Então, meu querido, elas ainda estão aqui. A impressão, o espelho, entre a jornada e a data de validade. Qual o conforto dos seus dias? Qual o coração que você quer na sua cama? Apenas o seu? Você precisa do que mais? De mais um blefe? De mais uma história mal educada para nos perturbar o sono, ou a hora do jantar? Você precisa do caos? O que te atrai? O que te comove? O leve ou o pesado? A meia debaixo da cama escondendo o momento de insanidade? O chapéu côco seduzindo o momento de espera? Quanto você quer pagar? Quanto você vai colher? Qual o final que te interessa? Você quer quais palavras nessa hora? “Estou muito feliz”? Ou “the end”? Qual te aproxima da chegada? O eterno retorno?
Imagem por: Helena [Frazey]

Não existe argumento, ou declaração registrada que possa explicar porque acontece.
Mas isso não tem relevância nenhuma, já que o que intriga mesmo é a reação do público envolvido. São meninas prendadas, sabem das coisas da vida, esperam casar de véu e grinalda, esperam, esperam, esperam... Mas na hora do vamos ver, não sobra pra ninguém, é uma debruçando no ombro da outra, caindo juntas, comprando lingeries juntas. Acontece que para essas meninas, o inesperado pode acontecer. E acontece na maioria das vezes. É o cafajeste em série, daqueles do sopão de centro espírita. Se colocar uns três envolvidos, depois que amolece a gente não sabe quem é quem. Tem o amigo que vira mais que amigo, e a gente decide se vai ou se fica. Tem os que fazem o caminho contrário a esse, e que a gente pode sempre desabafar, trocar fofocas. Tem aquele de sempre, e uns tantos pra trocar olhares. Mas as meninas estão sempre lá. A espreita, na ciranda da noite, no desprendimento do dia, com telefonemas, café as 16, sorvete aos domingos. Ninguém sabe o porquê. Mas no fim da noite são elas que precisam do cuidado dos desinibidos, ou são elas que botam todos pra correr, e ficam despedaçadas um do lado da outra. Naquele momento em que todo mundo fica mudo, pasmo, e a gente sela mais um fragmento de nós, a gente paga pra ver, a gente blefa, a gente sela... mais uma proposta de ilusão catada no escuro.
E há controvérsias...
Estou por um triz. Por um fio. Já nao me alcanço. Fico com outro que me alivia. Sou eu? ou sao as palavras? Não, nao me confunda. Eu estou bem de pé, parada. As palavras que vagam.
desencontrários
Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
P. Leminski

Alicia recebeu da vida alguns dos atributos mais fortuitos, o suficiente para ter tudo e não pedir quase nada em troca. Os olhos se davam para o coração que oferecesse mais. Tinha na pele cada movimento marcado de suas histórias. A primeira vez que entrou no mar é uma memória que sempre comoveu Alicia.
Ela via na vida a oportunidade de estrelar A peça de teatro. Ela via na vida, um palco iluminado, e sabia que ia chorar quando saísse de cena. Ela não decorava textos, ela era o seu próprio, dava passos marcados, movimentos estrategicamente calculados, o movimento da luz nos cabelos era talvez o ato de maior importância em sua peça que nunca se repetia. Alicia se comovia com o próprio choro, ria de suas piadas. Não precisava de público. E foi como uma ironia, foi como brincar com fantoches. Alicia depois daquele acidente era apenas telespectadora de sua trama. Talvez seu personagem mais central, talvez a protagonista que ela esperava estrelar.
Ali na cama imóvel, personagens mancos, loucos e viris vieram a seu encontro. A amiga de infância, hoje casada e com filhos nos braços, veio pedir desculpas pelo tempo escasso, e por nunca saber o que dizer a ela. E agora na cama, Alicia escutava tudo freneticamente, como se escuta uma fita cassete rebubinar. Era tudo o avesso, o fim pelo começo.
Hora ou outra quem vinha a seu encontro era o seu sócio, vinha com os cuidados dos empresários a beira de perder seus grandes negócios. E Alicia desejava nunca ter sido bem sucedida, a ser apenas aquela ouvinte desenganada.
Toda noite vinha ele. O que ela perdera para a vida, para o destino. Vinha com mãos geladas, tirava a franja de Alicia do rosto, e contava alguma memória perdida, as férias em Búzios, ou a gafe no restaurante japonês. Ela pressionava o rosto contra si mesma, sentia q ia chorar, mas não chorava. Não queria se comover nos primeiros vinte minutos da peça.
Sua mãe dormia com ela dia sim dia não. Nos dias não, quem ficava era a irmã. E talvez fosse essa a única a sentir por completo desgosto o que Alicia passava. A mãe era de um carinho egoísta, de um sorriso pedinte, mas as mãos a confortavam. A irmã a olhava esperando mais um conselho, esperando mais um olhar de cumplicidade. Alicia queria falar, mas não conseguia. “Que droga esses remédios me turvando a vista.”
Alicia dormia com três costelas quebradas, o fêmur despedaçado, vários pontos no ombro e na cabeça.
Ninguém sabia qual foi a peça chave do desastre. Ninguém sabia o que havia do outro lado da linha naquele telefonema, ninguém sabia que ruído ensurdecedor a perturbou tanto assim, para que aqueles olhos saltassem carro a fora. Ela vai manter esse segredo até o último ato. Por enquanto ela vive o mais prazeroso dos aplausos, agora é ela quem cheira as flores antes de jogá-las no palco. Alicia manobra o sentido da vida, em momentos opostos da solidão que sempre a fez tão bem. Todo mundo está ali. Os loucos, os desvairados, os neuróticos, os viris. Todos fazendo cena para os olhos de Alicia. E ela esconde muito bem seu último ato, tem certeza que não se passaram nem uma hora de show e alguns lugares ainda estão vagos.