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Alicia recebeu da vida alguns dos atributos mais fortuitos, o suficiente para ter tudo e não pedir quase nada em troca. Os olhos se davam para o coração que oferecesse mais. Tinha na pele cada movimento marcado de suas histórias. A primeira vez que entrou no mar é uma memória que sempre comoveu Alicia.
Ela via na vida a oportunidade de estrelar A peça de teatro. Ela via na vida, um palco iluminado, e sabia que ia chorar quando saísse de cena. Ela não decorava textos, ela era o seu próprio, dava passos marcados, movimentos estrategicamente calculados, o movimento da luz nos cabelos era talvez o ato de maior importância em sua peça que nunca se repetia. Alicia se comovia com o próprio choro, ria de suas piadas. Não precisava de público. E foi como uma ironia, foi como brincar com fantoches. Alicia depois daquele acidente era apenas telespectadora de sua trama. Talvez seu personagem mais central, talvez a protagonista que ela esperava estrelar.
Ali na cama imóvel, personagens mancos, loucos e viris vieram a seu encontro. A amiga de infância, hoje casada e com filhos nos braços, veio pedir desculpas pelo tempo escasso, e por nunca saber o que dizer a ela. E agora na cama, Alicia escutava tudo freneticamente, como se escuta uma fita cassete rebubinar. Era tudo o avesso, o fim pelo começo.
Hora ou outra quem vinha a seu encontro era o seu sócio, vinha com os cuidados dos empresários a beira de perder seus grandes negócios. E Alicia desejava nunca ter sido bem sucedida, a ser apenas aquela ouvinte desenganada.
Toda noite vinha ele. O que ela perdera para a vida, para o destino. Vinha com mãos geladas, tirava a franja de Alicia do rosto, e contava alguma memória perdida, as férias em Búzios, ou a gafe no restaurante japonês. Ela pressionava o rosto contra si mesma, sentia q ia chorar, mas não chorava. Não queria se comover nos primeiros vinte minutos da peça.
Sua mãe dormia com ela dia sim dia não. Nos dias não, quem ficava era a irmã. E talvez fosse essa a única a sentir por completo desgosto o que Alicia passava. A mãe era de um carinho egoísta, de um sorriso pedinte, mas as mãos a confortavam. A irmã a olhava esperando mais um conselho, esperando mais um olhar de cumplicidade. Alicia queria falar, mas não conseguia. “Que droga esses remédios me turvando a vista.”
Alicia dormia com três costelas quebradas, o fêmur despedaçado, vários pontos no ombro e na cabeça.
Ninguém sabia qual foi a peça chave do desastre. Ninguém sabia o que havia do outro lado da linha naquele telefonema, ninguém sabia que ruído ensurdecedor a perturbou tanto assim, para que aqueles olhos saltassem carro a fora. Ela vai manter esse segredo até o último ato. Por enquanto ela vive o mais prazeroso dos aplausos, agora é ela quem cheira as flores antes de jogá-las no palco. Alicia manobra o sentido da vida, em momentos opostos da solidão que sempre a fez tão bem. Todo mundo está ali. Os loucos, os desvairados, os neuróticos, os viris. Todos fazendo cena para os olhos de Alicia. E ela esconde muito bem seu último ato, tem certeza que não se passaram nem uma hora de show e alguns lugares ainda estão vagos.