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Será que um dia olharemos para os lados, pra nós mesmas, para o espelho e diremos, não preciso mais disso. Nem deles. Andamos por entre becos ainda, andamos por entre cordas bambas e desatinos. Guardamos um segredo compartilhado, temos sentinela nessa sociedade secreta. Aprendemos que viver é melhor que chorar, mas ainda sim choramos, escondidas, temos nossos travesseiros, mesmo que embolorados, para nos escutar ainda. E fazemos da noite, o lugar para se redimir. E ecoamos por aí, por entre o seu olhar de despeito, por entre essa sua fraqueza, por entre sobras de você, por entre sua máscara e seu medo. Não quero fazer destas, palavras neuróticas, nem ter uma pitada de Suzana Flagg em mim. Meu destino não é esse, mas enquanto isso me sobra auto engano e parafinas daquela vela que já se apagou faz tempo. Será que um dia dissecaremos a verdadeira beleza? Será que um dia, eu volto a ter o céu em minhas mãos esticadas? Será que um dia eu viro estrela e me afundo no azul?
Quando você não existia a vida era como um quarto de luz apagada. Um vácuo. O silêncio. A vida te pariu e você nasceu para mim. Essa é sua biografia na minha história. Você a traçou à sua maneira, fazendo de mim apenas sua coadjuvante. Meus olhos chegavam até você com curiosidade e enquanto você era criança ainda e dava seus primeiros passos, aqueles largos, lá no Rio de Janeiro, eu percebi. “Será que ninguém percebe através dos seus olhos, a pessoa linda que você é? Ninguém vê sua doçura como eu” Você dizia e eu acreditei. E você foi caminhando. Com passos marcados, hora e data pra chegar e sair. A vida ganha outros rumos. E você se mostra sábio e dono de si. A idade adulta chega para nós. Temos que sustentar céus e terra, mas nossas pernas são fracas, e temos os braços e mãos trêmulas. Você me mostrou que antes você existia sem mim. E eu fiz parte do seu todo, nunca vou esquecer aquele dia e sua rotina de dois anos de idade na fita cassete do seu vídeo. Eu estava lá, fazendo parte de algo maior. Você me mostrou que existia bem antes de mim, e eu? Eu chorei. Fomos criando raízes intangíveis. Demos valor demais no pouco que tínhamos. Você via graça em mim, e isso bastava. Meu perfume te bastava. E a gente construiu tudo. Pedra por pedra, filme por filme, música por música. E eu me habituei aos seus defeitos, à sua chatice de não gostar de Pink Floyd. Aquela banda underground que você insistia em me aplicar. Ah, a nossa história. E você cresceu tanto. A gente se propôs uma vida juntos. E eu acordava todo dia de manhã com você do meu lado, toda mole, querendo amor. E eu tinha. E nossas peles, nossos ossos, foram ficando pesados e fracos. E nossa vida passou, fomos envelhecendo um no outro. E eu nunca vou esquecer aquele dia. O dia em que você morreu. Eu senti tanta raiva. Eu quis morrer junto. Eu não queria te enterrar. Eu lutei tanto e até hoje eu sonho que te encontro. Que a gente toma vinho no empório e fala de nós. Até hoje eu não superei a perda. Vivo sob antidepressivos, álcool e ilusões a luz do dia. Você me faz tanta falta. Eu vivo sem eixo, eu sobrevivo. Mas um dia eu sei que vou te ver de novo, naquele lugar, e você vai me abraçar e dizer: “Como eu ainda te amo”.

Primeiro, era a Terezinha....
Eu passeava distraída, com um copo meio cheio nas mãos. São nas distrações que as coisas ao sublimarem o fantástico, acontecem. Meu grande amor, parado ali, bem na minha frente. Sabe quando aquela pessoa sorri pra você, e sem querer acreditar que aquilo é contigo, você olha pra trás? Só pra ter certeza de que não está acontecendo com você. E aquele gesto faz você ser, por segundos, mais patética do que realmente é? Pois então... Foi assim. Corri por muito tempo atrás daquele sorriso. “Aceita um halls?”, E aí meu bem? O que você faria se só restasse esse dia? Ele foi minha primeira folha em branco, o primeiro a ficar pálido comigo. Os primeiros pés debaixo das cobertas. Eu fui, seu primeiro tombo, sua primeira Vênus de Milo, o primeiro blefe, a dor da qual ele contava, e exagerava, não cabia a mim entender. Não coube. E ele se foi. Por mero descuido do destino. Tentei trazer ele de volta. Mas... ah o destino. Hoje em dia ele ainda me assombra. Vem sorrateiro, em sonhos. Minha vida se divide. E são eles que separam o joio do trigo. Todos eles. O segundo me deu vida. Me deu meu fruto. Soubemos do amor carnal, do pão amassado de manhã. O real, os gestos,as provas de amor bem na nossa cara. E a gente sorrindo pra elas, e brincando com elas. Até que me faltou o sentido, nos faltou garra, e eu faltei... Fui embora. Com a cruz nas costas e com flores que teimavam em nascer sob meus pés. O terceiro e o último, esse que marca a margem dos meus dias, veio apenas. Chegou de mansinho. Outra distração minha e... Com o coração e pernas largas, me abocanhou. Mastigou e engoliu. Quis cuspir, conteve-se. Jogou fora apenas.
... E assim minha vida não divide mais. Caí no vazio, me coube algum espaço, para que as veias se abrissem, e explodissem. Agora, sou sangue escorrendo por entre as pedras, as que ficam pelo caminho, as que correm rio abaixo. Eu sou hemorragia que não estanca. Espalhada por entre corações que pulsam, que param. Entre o seu. Eu sou o gozo da sua dor. Você não percebe a minha? Você ainda não percebe?
Escuta... drop drop drop...
Sou eu pingando, por aí. Colorindo o pé de amora, outra vez.
Imagem de: Asas do desejo de Wim Wenders
Preciso deixar claro que corresponderei às suas expectativas da maneira que eu puder. Não vai ser sempre que vou estar por perto, pra te dizer algo que voce precisa, ou deixar um sorriso como um carinho. Mas voce pode perguntar pra qualquer uma da paróquia. Meus braços pertencem aos meus amigos. O resto é deles, os malditos. Mas os braços, esses sao de voces, meus amigos. Tem gente que coleciona figurinha de futebol. Eu gosto de colecionar pessoas. Vivas. Que estao pra hora da morte. Que ja foram inimigas mortais e que agora são, minhas. Minhas pessoas favoritas. E parte do meu braço tambem pertence a voce. E nossa história ja começou, já se cruzou, passamos em pouco tempo por coisas que o ceu e a terra desconfiam nao ser de autoria de Deus. Vivemos tao intensamente, que perto de nós, quem passou foi a morte. Morremos em um fim de semana. Nascemos numa tardezinha de domingo. Nos reconhecemos uma na outra. Conhecemos enfim, nossas diferenças. E eu sempre achei a raposa a mais sensata dos personagens. Cativo e tu cativas. Porque os meus braços estão sempre abertos. Sempre.