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Terra Blog

08.05.08

Todas as palavras sao minhas.

Estou por um triz. Por um fio. Já nao me alcanço. Fico com outro que me alivia. Sou eu? ou sao as palavras? Não, nao me confunda. Eu estou bem de pé, parada. As palavras que vagam.

 

desencontrários
Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

P. Leminski

 

 

  • criado por  lust_for_life criado por lust_for_life
  • Postado em 19:44:59

06.05.08

Alicia, a suicida.

 

Alicia recebeu da vida alguns dos atributos mais fortuitos, o suficiente para ter tudo e não pedir quase nada em troca. Os olhos se davam para o coração que oferecesse mais. Tinha na pele cada movimento marcado de suas histórias. A primeira vez que entrou no mar é uma memória que sempre comoveu Alicia.
Ela via na vida a oportunidade de estrelar A peça de teatro. Ela via na vida, um palco iluminado, e sabia que ia chorar quando saísse de cena. Ela não decorava textos, ela era o seu próprio, dava passos marcados, movimentos estrategicamente calculados, o movimento da luz nos cabelos era talvez o ato de maior importância em sua peça que nunca se repetia. Alicia se comovia com o próprio choro, ria de suas piadas. Não precisava de público. E foi como uma ironia, foi como brincar com fantoches. Alicia depois daquele acidente era apenas telespectadora de sua trama. Talvez seu personagem mais central, talvez a protagonista que ela esperava estrelar.

Ali na cama imóvel, personagens mancos, loucos e viris vieram a seu encontro. A amiga de infância, hoje casada e com filhos nos braços, veio pedir desculpas pelo tempo escasso, e por nunca saber o que dizer a ela. E agora na cama, Alicia escutava tudo freneticamente, como se escuta uma fita cassete rebubinar. Era tudo o avesso, o fim pelo começo.

Hora ou outra quem vinha a seu encontro era o seu sócio, vinha com os cuidados dos empresários a beira de perder seus grandes negócios. E Alicia desejava nunca ter sido bem sucedida, a ser apenas aquela ouvinte desenganada.

Toda noite vinha ele. O que ela perdera para a vida, para o destino. Vinha com mãos geladas, tirava a franja de Alicia do rosto, e contava alguma memória perdida, as férias em Búzios, ou a gafe no restaurante japonês. Ela pressionava o rosto contra si mesma, sentia q ia chorar, mas não chorava. Não queria se comover nos primeiros vinte minutos da peça.

Sua mãe dormia com ela dia sim dia não. Nos dias não, quem ficava era a irmã. E talvez fosse essa a única a sentir por completo desgosto o que Alicia passava. A mãe era de um carinho egoísta, de um sorriso pedinte, mas as mãos a confortavam. A irmã a olhava esperando mais um conselho, esperando mais um olhar de cumplicidade. Alicia queria falar, mas não conseguia. “Que droga esses remédios me turvando a vista.”

Alicia dormia com três costelas quebradas, o fêmur despedaçado, vários pontos no ombro e na cabeça.

Ninguém sabia qual foi a peça chave do desastre. Ninguém sabia o que havia do outro lado da linha naquele telefonema, ninguém sabia que ruído ensurdecedor a perturbou tanto assim, para que aqueles olhos saltassem carro a fora. Ela vai manter esse segredo até o último ato. Por enquanto ela vive o mais prazeroso dos aplausos, agora é ela quem cheira as flores antes de jogá-las no palco. Alicia manobra o sentido da vida, em momentos opostos da solidão que sempre a fez tão bem. Todo mundo está ali. Os loucos, os desvairados, os neuróticos, os viris. Todos fazendo cena para os olhos de Alicia. E ela esconde muito bem seu último ato, tem certeza que não se passaram nem uma hora de show e alguns lugares ainda estão vagos.


  • criado por  lust_for_life criado por lust_for_life
  • Postado em 12:45:54

05.05.08

Turva

Me vejo em bares de esquina, sozinha ou mal acompanhada. Falo muito, gesticulo piadas non-sense. Me atiro a primeira pedra quando me contradigo. Sou um xérox de mim mesma. Apelativo, borrado, turvo. Eu me vejo em mil situações, umas em que você está, outras em que só eu estou. Corro por entre corredores cheios de gente, corro para mostrar desespero, assim como o quadro de Munch. Vou pintando minha tela. A tela em que eu vou estrear meus passos cegos. Eu me encarrego de mim. Mesmo quando não posso levantar tanto peso, eu ainda me levo para lugares que não me pertence. E sigo sozinha, ou cheia de mim. Aquela tempestade teima em pingar no copo, o copo se enche. E eu me vejo, por dentro, pelas caminhadas do meu centro, do meu umbigo. Palavras que passam por entre minhas fachadas, como out doors a te falar da minha imagem-semelhança. Todos te avisam e você se encanta. All bullshit. Sou eu sempre me enganando, e com vista grossa para o relógio que escorre, que derrete o meu tempo de idas e vindas. Mas você insiste em olhar aos out-doors. Aos filmes que eu já vi, as discussões que eu proponho, a mesma ladainha da cidade dos sonhos. Eu me perco, e fisgo em mim essa mania de querer me contrariar sempre, porque ali os feixes luminosos indicam que há uma saída, que eu existo sobre holofotes e tapetes vermelhos. E eu mesma, a outra que insiste em te falar, it´s all bullshit. No exit is safe enough.

  • criado por  lust_for_life criado por lust_for_life
  • Postado em 12:50:36

28.04.08

Buraco de grafite

O personagem não satisfez, a trama sempre passava sensação de deja vu e arrepio. Como uma música ruim que nos pega desapercebidos. E me disseram que eu devia bater em outras teclas, tecer outras fantasias, cumprir com o papel da criação decente, cordata e simples. Pensei em ser passageira de outro trem, pensei em não entrar na mesma sala de cinema, em não ir à mesma locadora. Tentei desviar do meu caminho, ver fotos de paisagem, procurei em tudo. Andei por cima, de cabeça erguida, prendendo em cada canto por onde passava bilhetes que me avisassem algo. Só que todos estão em branco. Tentei respirar, tentei pegar essa poesia que me saía das narinas. Que ilusão! Tentei chorar também, aos soluços. E o que consegui foi um buraco de grafite no papel. Mas um dia, minhas mãos compensam o que me falta e eu consigo. E um dia eu mostro ao que vim. Nem que seja para ver em um ponto, milhares de ocasiões. Nem que seja parar de recuar toda vez que me batem à porta. Nem que seja, parar de sentir medo de terminar essa poesia que sempre começamos. Nem que seja para lhe entregar meus braços, oferecer pipoca e lhe fazer companhia. Nem que seja o silêncio de penas cansadas. Por enquanto, em mim, guardados, todos os bilhetes, anotações, inícios e fins. Mas um dia, ah um dia! Eu subo na escada e acendo a luz da prosa.
  • criado por  lust_for_life criado por lust_for_life
  • Postado em 18:21:18

25.04.08

Treviso



E hoje comemorava seus 97 anos. Família. Que engenhoca mais engraçada. Um “oi, há quanto tempo não nos vemos, que saudade.” E um certo olhar de rabo de olho pra ver se você engordou, emagreceu, casou, descasou. Fico pensando como uma pessoa pode conseguir reunir quarenta de uma só vez. Nos seus 97 anos, tentei arquitetar de uma forma melancólica e até vil o que passa pela cabeça branca, será que na mente dele existem memórias embaçadas? Vivas? Lembranças da Itália com certeza e o pé de cereja. Na minha memória, eu no colo dele, aprendendo italiano, a falar a palavra cereja. Porque não optei por essa oportunidade? Hoje eu poderia falar italiano com ele. Mas não, criança quer mais é aprender a jogar futebol de botão. Deixa o buon giorno pra de tarde. E fiquei ali parada, enquanto todos comiam e bebiam, eu o observava. Não, não se enganem o carcamano é bom de canastra até hoje. Torce pro eterno Palestra Itália e é brasileiro sim. De língua, suor, e casamento. A história não é relevante no momento de glória. 97 anos. Um amor já morto, frutos maduros, alguns podres entre as mudas que teimam em crescer. Gosto de enumerar as memórias que tenho com ele e as memórias que tenho sobre ele. Dormir às sete da noite, acordar cinco da manhã. Uma dose de pinga pra escovar os dentes. Sair com o tesourão pra podar as mudas de uva. Trouxe essa mania de saber plantar lá da terra dele. E veio pro Brasil plantar bem mais que uva. Se eu fecho os olhos eu sinto ainda o cheiro de fumo cortado, picado, cuidadosamente. Como eu gosto das minhas impressões sobre ele! Pessoa boa, foi bom marido de mulher ciumenta. Quatro anos mais velha. Tudo que sei sobre ele foi a minha avó que contou. Ou minha mãe. Ele me contava do pé de cereja na Itália, e sobre o frio que a gente não vê aqui. E ali parada, olhando pro meu bisavô de rabo de olho, tentei decifrá-lo. Sem razão pra isso lógico, porque pra quem tem 97 anos, oráculo vem por detrás de olhos sábios e cansados. Será que ele pensava na vó Bisa? A família quando comemora o aniversário dele é com uma melancolia de dar dó. “Vamos cantar parabéns pro vovõ, nunca se sabe né?” Na minha cabeça meu bisavõ não vai morrer, ele vai virar plantação de uva no quintal da casa dele, depois de uma jornada tão visceral, vai ser raiz viva. Meu võ Bibi. E a sessão de fotos da festa? Todo mundo quer um pedaço não do bolo, mas dele. Para colocar nos porta retratos e mostrar para as visitas. Ele se transorforma numa relíquia rara, empoeirada e lúcida. Ele sorri, olha e abraça. Sem distinção. Ele reuniu quatro gerações no mundo, e fez do seu coração maior que a distancia daqui a Treviso. De herança ele deixa pra mim, aquele fogãozinho enferrujado e pesado. Uma vara de pescar no Pantanal, e talvez se eu pedir muito e com cuidado cerejas lá casa dele, na Itália.


Rafaella. Uma Biasi nata. Bisneta com orgulho.

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  • Postado em 00:43:16